sexta-feira, 18 de maio de 2012

Crítica de Leitor: «Eu Sou Deus»


«A cidade de Nova Iorque volta a viver um verdadeiro pesadelo. Edifícios aleatórios estão a ser demolidos através de estranhas explosões, o que coloca em risco qualquer pessoa em qualquer lugar. Vivien Light, uma jovem e destemida detetive com uma história familiar repleta de sofrimento, é encarregada de descobrir a identidade do serial killer e assassino de massas. Sem esperar, Vivien vê-se obrigada a partilhar a investigação com Russel Wade, um jovem repórter fotográfico que foi obrigado a devolver um prémio Pulitzer e que acredita ver a sua salvação na resolução deste mistério.

Depois de a Contraponto ter apresentado o autor aos leitores portugueses com Eu Mato (ler crítica), a editora volta a apostar em Faletti, com um novo e surpreendente policial.
Com uma trama bem conseguida, o leitor só vai querer largar o livro quando tudo estiver desvendado. É que se no início o autor dá indicações da identidade do vilão da narrativa, a verdade é que tal revela ser um belo truque que distrai atenções. Faletti leva a acreditar que deu todas as pistas necessárias para a descoberta da verdade por escondidas pelos crimes, mas, nas últimas páginas, o jogo é virado ao contrário e surpreende.
Mas se Eu Sou Deus possui acontecimentos deliciosos, tais acabam por perder alguma da sua força devido às personagens. Vivien Light e Russel Wade são interessantes, mas apenas enquanto analisados separadamente. Vivien é a imagem da mulher que sentiu necessidade de construir uma carreira sólida para ser valorizada, enquanto Russel é o homem inconformado por não conseguir preencher um vazio que a vida lhe deixou. Ambos têm histórias impressionantes, mas a relação que construem não convence. O leitor percebe que não era necessário existirem desenvolvimentos tão rápidos nesta relação.
Mas a verdade é que o ponto fulcral é a ação e esta vai com certeza agradar. A escrita é fácil de acompanhar e bastante simples, o que leva o leitor a perceber tudo o que lhe é transmitido, mesmo conceitos mais técnicos.
Destaco ainda o facto de o autor demonstrar preocupação em explicar o que leva as suas personagens a cometerem atos tão cruéis. A história fica, sem dúvida mais rica, e poderá gerar sentimentos de compaixão por quem pratica a crueldade para com o outro.
Giorgio Faletti, que esteve recentemente em Portugal para lançar esta mesma obra no Instituto Italiano de Cultura de Lisboa, volta a provar que é um homem de muitos talentos, e de que a escrita é, sem dúvida, um deles.
Cláudia Sérgio, do blogue Bela Lugosi Is Dead


segunda-feira, 14 de maio de 2012

Imprensa: «Persépolis»

«Viagens e regressos

Mais do que uma fábula moderna sobre o Irão, Persépolis é uma obra sobre desencontros, com a violência em pano de fundo e a memória a servir de luz

Doze anos depois da edição do primeiro volume de Persépolis pela L’Association, a obra de Marjane Satrapi já integrou o imaginário colectivo de muitos ocidentais e sobretudo o imaginário que muitos ocidentais construíram do Irão. Não será despropositado colocá-la na companhia dos filmes de Abbas Kiarostami e Jafar Panahi: também a sua representação de um país se construiu à margem da propaganda dos poderes políticos e das imagens difundidas pelos mass media. Os paralelismos podiam terminar aqui. Persépolis é banda desenhada (pese embora a adaptação cinematográfica realizada em 2007) e, com a chancela da Contraponto, conhece agora, em versão integral, a sua primeira edição portuguesa. Pede, portanto, um leitor, tipos de fruição específicos, respirações entre o folhear, pausas. O livro narra a vida de Satrapi entre a década de 1980 e o ano de 1994: da sua infância em Teerão até à adolescência na Áustria e, de novo, na capital iraniana. E constrói-se, até pelo intervalo temporal que o determinou (foi iniciado em 1999, no estúdio Atelier des Vosges, em Paris), enquanto revisitação de uma família, de uma sociedade e de um país, a partir de uma memória individual. “Podemos perdoar, mas não devemos nunca esquecer”, escreve Satrapi na introdução.
E Satrapi não esquece; não esquece as vítimas da violência política, do fanatismo, da guerra. Inscreve-as nas suas vinhetas: o tio Anoosh, que será executado pela polícia política de Khomeini (p. 78), amigos da família torturados e desaparecidos, os jovens mártires da guerra Irão-Iraque. Ou ela própria, na condição de exilada. História e autobiografia, discurso público e privado, Irão e Ocidente convergem na criação de uma narrativa feita de partidas e regressos. Na primeira parte, A História de Uma Infância, acompanhamos o dia-a-dia “traumático” de uma criança. Dos adultos, a pequena Satrapi ouve relatos da violência da ditadura do Xá e da República Islâmica: tortura, prisões, massacres que mostra aos leitores. É talvez o momento visualmente mais ousado de Persépolis. Como representar, muitos anos depois (em plena idade adulta), a morte e os mortos segundo a consciência e a imaginação de uma criança que já não existe? Os recursos estilísticos usados por Satrapi (que chegou à banda desenhada após o encontro com Maus, de Art Spiegelman) protegem a ousadia sem sacrificar a complexidade: desenho minimal (quase infantil), limitação da perspectiva a pequenas passagens, domínio do preto e branco, com as suas sombras e silhuetas (a autora admite a influência de Nosferatu, de Murnau), mas sem tonalidades ou texturas. Só uma vez Satrapi interrompe este registo, quando é testemunha directa do horror da guerra: sob as ruínas de uma casa pousa o corpo de uma jovem vizinha que ela nunca chega desenhar, mas sabemos que viu (p. 150).
É entre mortos e vivos, momentos de alegria e de luto, festa e medo que constrói Persépolis; oposições que, mais de uma vez, partilham a mesma prancha. Na página 110, por exemplo, jovens soldados rebentam sobre as minas iraquianas; logo abaixo, noutra vinheta, vemos Satrapi a dançar numa festa com amigos. Uns e outros são corpos que partilham, finalmente, o mesmo lugar: o da memória.
Satrapi assume de onde vem: de uma família secular, liberal e letrada, de simpatias marxistas. Estuda no liceu francês de Teerão, tem sentimentos de culpa devido à sua privilegiada condição económica e facilmente se incompatibiliza com o fundamentalismo islâmico (enfrenta-o, engana-o). O seu olhar não tem tempo para “desenhar” soldados ou guardas como os de Offside, de Panahi: em Persépolis são, fundamentalmente, avatares de uma opressão.
É esta Marjane Satrapi que no segundo capitulo, A História de Um Regresso, chega à Áustria para estudar num colégio de freiras, com o apoio financeiro da família. No entanto, a primeira experiência europeia salda-se num fracasso. Agradam-lhe a liberdade de movimentos, o convívio com os outros, a música punk e até o haxixe. Em contrapartida, não compreende a promiscuidade sexual, reprova o desrespeito pelos mais velhos (que descreve quase sempre com simpatia) e critica a crescente desconfiança face ao outro (muçulmano, iraniano, de tez escura). As conclusões desta “etnografia” (que lembra a ensaiada por Jean Rouch em Petit à Petit) ensombram o (frustrante) desenlace amoroso e a consequente crise de identidade. Regressa ao Irão, mas um casamento falhado, as ruínas e o sufoco das tradições são-lhe insuportáveis e aceita o exilio final na Europa (Paris). Por isso, mais do que um livro sobre o Irão, Persépolis é um livro sobre as tensões entre a sociedade e a família e as escolhas a que os indivíduos são forçados perante a repressão: exílio, emigração, aculturação, desenraizamento. O que explica o seu apelo poético e político, 12 anos depois.»
José Marmeleiro, Ípsilon, Público

Destaque: «Persépolis»


Uma apreciação muito bem-vinda do autor J. Rentes de Carvalho. Aqui.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Imprensa: «Persépolis»

«Viagens e regressos

Mais do que uma fábula moderna sobre o Irão, Persépolis é uma obra sobre desencontros, com a violência em pano de fundo e a memória a servir de luz.
José Marmeleira

Doze anos depois da edição do primeiro volume de Persépolis pela L’Association, a obra de Marjane Satrapi já integrou o imaginário colectivo de muitos ocidentais e sobretudo o imaginário que muitos ocidentais construíram do Irão. Não será despropositado colocá-la na companhia dos filmes de Abbas Kiarostami e Jafar Panahi: também a sua representação de um país se construiu à margem da propaganda dos poderes políticos e das imagens difundidas pelos mass media.
Os paralelismos podiam terminar aqui. Persépolis é banda desenhada (pese embora a adaptação cinematográfica realizada em 2007) e, com a chancela da Contraponto, conhece agora, em versão integral, a sua primeira edição portuguesa. Pede, portanto, um leitor, tipos de fruição específicos, respirações tem sentimentos de culpa devido à sua privilegiada condição económica e facilmente se incompatibiliza com o fundamentalismo islâmico (enfrenta-o, engana-o). O seu olhar não tem tempo para “desenhar” soldados ou guardas como os de Offside, de Panahi: em Persépolis são, fundamentalmente, avatares de uma opressão.
É esta Marjane Satrapi que no segundo capitulo, A História de Um Regresso, chega à Áustria para estudar num colégio de freiras, com o apoio financeiro da família.
No entanto, a primeira experiência europeia salda-se num fracasso. Agradam-lhe a liberdade de movimentos, o convívio com os outros, a música punk e até o haxixe. Em contrapartida, não compreende a promiscuidade sexual, reprova o desrespeito pelos mais velhos (que descreve quase sempre com simpatia) e critica a crescente desconfiança face ao outro (muçulmano, iraniano, de tez escura). As conclusões desta “etnografia” (que lembra a ensaiada por Jean Rouch em Petit à Petit) ensombram o (frustrante) desenlace amoroso e a consequente crise de identidade.
Regressa ao Irão, mas um casamento falhado, as ruínas e o sufoco das tradições são-lhe insuportáveis e aceita o exilio final na Europa (Paris). Por isso, mais do que um livro sobre o Irão, Persépolis é um livro sobre as tensões entre a sociedade e a família e as escolhas a que os indivíduos são forçados perante a repressão: exílio, emigração, aculturação, desenraizamento. O que explica o seu apelo poético e político, 12 anos depois.»
Ípsilon, Público

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Persépolis no TOP


Persépolis teve uma estreia em grande nas livrarias e já está no TOP Bertrand num fantástico 5º lugar!

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Conspiração 365

Crítica de Leitor de «Conspiração 365 - Dezembro» para ler aqui: http://conspiracao365.blogspot.pt/2012/04/critica-de-leitor-dezembro.html

E mais imagens da série de TV que tem estado a passar na televisão australiana e que infelizmente ainda não chegou a Portugal.


terça-feira, 10 de abril de 2012

Richelle Mead lançou app no iTunes

A autora da série Academia de Vampiros lançou recentemente um app na loja do iTunes para iPhone, iPad e iPod Touch.

Ver aqui como funciona:

Crítica de Leitor: «Não Sou Um Serial Killer»

«Aos quinze anos, John Wayne Cleaver está convencido de que está destinado a ser um serial killer. E as circunstâncias a favor da sua teoria são várias: como se não bastasse ter o nome de um serial killer e de uma arma, John parece ser incapaz de criar empatia com qualquer pessoa ou até mesmo de sentir qualquer emoção. Mas, destino ou não, John não quer seguir esse caminho e, para se impedir de fazer algo de irreversível, criou um conjunto de regras que têm vindo a gerir a sua vida. O problema é que, no momento em que a tranquilidade de Clayton é abalada pela descoberta de um corpo mutilado... ao qual se seguirá outro... e outro mais, John descobre que só ele, com a sua capacidade de pensar como um serial killer e de analisar a situação de formas que nem passariam pela cabeça das pessoas "normais", poderá fazer com que as mortes deixem de se suceder. E, ante um adversário difícil de compreender, é possível que várias regras tenham de ser quebradas para o parar.


É de uma forma quase descontraída que o protagonista nos conta os aspectos mais perturbadores do seu estranho mundo. Narrado na primeira pessoa e com uma escrita directa e envolvente, Não Sou um Serial Killer conjuga elementos de mistério e de macabro com um tom leve e que surpreende por alguns laivos de humor e uma visão bastante curiosa do que define um sociopata - aos olhos do próprio. É, pois, a estranha personalidade de John, que, com as suas peculiaridades, que primeiro chama a atenção deste livro, sendo particularmente curioso que um protagonista tão invulgar como John - o rapaz que se julga um futuro serial killer - acabe por surgir como um quase herói para a narrativa.

John é, portanto, um protagonista interessante, mas nem só dele vive a história. Se os meandros da mente de John na sua luta contra o que parece ser a natureza proporcionam, por si só, momentos de grande intensidade, há ainda assim um outro grande elemento a definir o rumo dos acontecimentos e esse é o suposto serial killer que está a deixar vítimas por Clayton. Aqui, sobressai a forma como o autor constrói o mistério, passando depois para uma revelação que é apenas o início, já que, ao incluir elementos de inexplicável, a história passa a dizer respeito menos aos passos da investigação e mais à descoberta de uma maneira de deter o assassino.

Ao confrontar John com um adversário em que o comum habitante de Clayton jamais poderia acreditar, cria-se também um interessante contraste entre os possíveis distúrbios na mente de um sociopata e uma "entidade" que, sem que a sua natureza seja amplamente explicada, se define também pela acção motivada pela necessidade, ainda que de um tipo diferente.

Com uma história cheia de surpresas, um conjunto de personagens interessantes e uma abordagem bastante inesperada ao mundo do crime, Não Sou um Serial Killer surpreende tanto pelo tom quase descontraído com que o autor desenvolve um tema bastante negro como pela forma como o protagonista é moldado pela situação em que acaba por se envolver. Surpreendente, de leitura compulsiva... e muito bom.»
As Leituras do Corvo

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Elogios que não acabam!

O livro «Persépolis» que saiu na semana passada já tem grande atenção mediática e os elogios não são poucos!

«Além da expressividade das suas pranchas a preto e branco, o que torna irresistível a arte narrativa de Satrapi é a forma como a vida da autora nos surge de forma realista e verosímil, umas vezes grandiosa, quase sempre banal, conseguindo-se através dela, vislumbrar os grandes movimentos e contradições da sociedade iraniana, muito mais complexa do que sugerem quase todos os discursos ocidentais sobre a antiga Pérsia.»
José Mário Silva, Atual, Expresso

«O melhor romance gráfico de sempre.»
Filipa Melo, Sol


«Uma memória gráfica brilhante e invulgar, contada num tom franco e cativante, que ilustra de forma dramática a maneira como os regimes repressivos deformam a vida dos cidadãos.»
Vogue